ENTRE BORRACHAS

março 9th, 2010

                  Wilton Porto*

Da maniçoba, fez a borracha,

Da borracha, criou o trabalho,

Do trabalho, lapidou os sonhos,

Dos sonhos realizou de outros

Os sonhos.

 

Pode haver sonhos sem borracha,

Mas para se ter borracha

Preciso, é, a maniçoba.

Moral da história:

 

Para se realizar tem que  sonhar.

Todo sonho nasce de uma meta.

A meta, origina na mente,

Isso significa que somos mente.

 

O menino que eu um dia fora,

Entre maniçobas, sonhos e borracha,

Usando bem toda a mente

Por este mundo afora,

Hoje, mais do que feliz se acha,

É apenas de prazer que chora.

            (Do livro O Curtidor de Peles}

A MARGARITA E O CEBOLINHA

fevereiro 9th, 2010

cebolinhaA Margarita e o Cebolinha

                                                                          Rita de Cássia Amorim Andrade

 Era uma vez uma Margarita que se viu, de repente, fora do canteiro de flores silvestres. Caminhava assustada pelo bosque, quando se deparou com uma plantação de cebolas.

O olor desprendido daquelas cebolas a embriagou. Ela ficou sem pernas para prosseguir suas passadas.

Olhou ao redor e percebeu que estava sendo observada. Procurou descobrir de onde vinha aquele olhar. Havia cebolas de vários tons de branco. Sob o sol, elas estavam protegidas por uma casca amarelada e seca. Assim, não dava para a Margarita descobrir o olhar pressentido, até que avistou uma cebolinha ainda tenra.

Era uma cebolinha macho. O cebolinha a olhava embevecido, com dois olhinhos verdes, próximos um do outro.

A Margarita correspondeu o olhar, curiosa. Ai, que olhinhos lindos! — Pensou.

Ao tentar se aproximar percebeu que estava enraizada. Espichou o mais que pôde e conseguiu chegar perto o suficiente para puxar conversa:

— Por que você fica aí, encoberto com essa casquinha seca?

— É para me proteger dos males da vida.

— Bem, eu não lhe faria nenhum mal.

— Não sei! Não conheço você!…

— Ora! Não precisa se assustar. No horóscopo cigano eu represento a “Estrela Cigana”.

— Eu não acredito em horóscopo!

— Posso ser também “Olho de Dia”

— O que significa isso?

— Eu me abro e fecho com o sol. Vamos, dispa-se.

— Hã!

— Só estou sugerindo que se descasque. Essa pele está feia!

— Mas eu sou feito de muitas camadas. Essa pele feia me protege do sol!

A Margarita, ousada, estendeu as mãos de pétalas e foi despindo o cebolinha, camada por camada. Só não esperava que o cheiro ocre lhe fizesse chorar. E a Margarita chorou. Chorava, mas teimava em descascar o cebolinha.

E o cebolinha só dizia:

— Eu não disse! Eu lhe preveni…

— Mas eu sou teimosa e vou descascar você até o final, com lágrimas ou sem lágrimas.

O cebolinha ia ficando cada vez mais roxo.

O tempo passava e a Margarita, quanto mais descascava o cebolinha, mais o cebolinha aumentava as camadas.

O tempo passou. Um dia, a Margarita se viu sequinha, que nem a primeira casca do cebolinha, e percebeu que era hora de virar pó.

Antes de libertar a alma de flor silvestre, a Margarita deu uma última olhada no cebolinha e sorriu…

O cebolinha continuava roxinho de vergonha, mas deixava escorrer uma lágrima.

outubro 24th, 2009 | Category: Mini contos

COMENTÁRIO

     Wilton Porto

            Vejo no miniconto de Rita de Cássia Amorim Andrade, nascida na cidade de Simplício Mendes (PI), o exemplo dos cuidados que temos ao encontrar-nos um desconhecido que nos observa dos pés à cabeça. Cada pessoa pode ter uma reação diferente. A reação de uma mulher pode diferir da do homem. Talvez possamos pensar que estamos sendo admirados No entanto, tem aqueles que acham que a roupa não está legal e por ai vão os pensamentos.

            Muitos, como o Cebolinha, estão enraizados numa educação rígida. Botam uma couraça no corpo para se proteger de tudo e de todos. Desconfiam de qualquer tipo que se aproxima e evitam conversação. Já outros não se intimidam e até conversam como se bons amigos fossem. A cultura e a educação têm muito a ver com isso. São tantos os salafrários que se aproveitam das pessoas abertas ou ingênuas para aplicar golpes! No tocante às crianças, temos que oferecer uma educação muito bem estruturada: são constantes os exemplos de pedofilia!

            Há, também, os casos do enraizamento. Vê-se a pessoa uma vez e já surge um brilho invadindo todo o nosso interior. Pinta uma amizade duradoura ou uma paixão que ultrapassa  entendimento comum. Nesse relacionamento, ajudamos e somos ajudados, ferimos e somos feridos. Há os que se eternizam e os que não duram um sonho de uma noite tranquila. Desse sonho pode ficar o cheiro da cebola – marca que aquele encontro, aquele momento a dois tatuou. Mas o que importa é que algo ficou. Nos dividimos, somamos, tivemos horas de  puro prazer, de elevação de algo que naquela história fora registrado no livro da nossa caminhada.

            Rita de Cássia Amorim Andrade está entre os melhores nomes da literatura piauiense. Seus romances são traçados dentro de uma linha moderna e ela tem uma fluência das mais cativantes. Valoriza a mulher, o relacionamento. A sensualidade é marcante na obra dela. Também escreve poesia. E seja qual for o que ela escreve, a escritora usa de uma responsabilidade incomparável, porque sabe das exigências do leitor e porque compreende que em literatura, temos que oferecer o melhor. Para isso, além da pesquisa, tem que haver talento. E Rita o tem de sobra.

O RIO DE MINHA TERRA

fevereiro 1st, 2010

O rio de minha terra passa pelas minhas mãos.

Águas barrentas, retratam o nível subindo.

Largueando, apressado, cabaças descendo pelo leito;

Toras de cerca nadando despreocupadas; nadadores

Desafiando potencial e fôlego…ah! O rio da

minha terra arranca-me as lembranças adormecidas:

As enchentes – cartão postal, momentos de corre-corre;

Canoas pra lá e pra cá… João pegando um cacho de banana;

Pedro arriscando-se pela melancia… correria; empurra-empurra: acharam um cadáver boiando… ah! o rio da minha terra passado em revista. Os banhos de todos os dias; a pelada espetacular; o caminhão abarrotado de beldroegas… a chuva torrencial, a água subindo pelas calçadas, os relâmpagos, os trovões… minha mãe trêmula, filhos debaixo das “asas”, em oração; todos os santos são lembrados; mas há os que correndo sem direção, banham, bebem cachaça, alheios às mães de terço nas mãos… o corre-corre para o rio – a enchente aumentou, todos querem apreciar o espetáculo; a canoa indo e vindo, seu Zé, com febre, está lá dentro, busca um médico, desafia a enchente, canoa sobe, desce – ondas agitadas – , lá vem uma tora de pau, canoeiro tem que ser manobrista no remo, o rio não dá bola, a enchente levanta a cabeleira do danado, canoa balançando, seu Zé trêmulo de frio, de febre, de medo… lá fora todos oram… graças a Deus! A canoa vira, ninguém se afoga e seu Zé nunca mais teve febre, nunca mais precisou de médico.

O rio da minha terra – Rio Piauí – em São João do Piauí.

(Do livro O CURTIDOR DE PELES – Wilton Porto)

O GENERAL

janeiro 11th, 2010

Aquele metro e meio de homem
Vestido numa farda bem engomada
Percebia-se logo ser um general
Bem-sucedido nas suas funções.

Medalhas e galardões espalhados
Por todo o corpo, eram provas incontestes
De que aquele homem havia  servido
A pátria com desvelos e paixão.
Indo pra lá e pra cá , cabeça erguida
Ao vento, retribuía continências
Cônscio do posto obtido.

Quem o via assim sereno
Sem auscultar seu passado
Podia desconfiar
Das voltas que havia  dado,
Mas o general nos confundia
Tal o amor que ele trazia
Pela pátria, pátria minha.

O país que ele quis servir
Certificou-se de que ele não servia,
Então desde aquele dia
O general que o povo via
Era um verso desgarrado da poesia,
Que sem escrevê-la,
Escrevê-la, ele queria.

Quantos generais perdidos mundo afora!
Não se sabe se a demência
É por não terem servido à pátria

Ou se não serviram a pátria porque a pátria
Diagnosticou-lhes demência.
               
                    Do livro O CURTIDOR DE PELES
          (Wilton Porto. Livro em Homenagem a São João)

ADAIL COELHO MAIA

dezembro 28th, 2009

ADAIL COELHO MAIA

Gilvanni de Amorim

Talvez estivéssemos sentados na calçada do Ginásio, ou na grama, no cascalho de pedras-de-fogo da Praça Honório Santos, ou aproveitando a sombra da figueira, nos intervalos das aulas… Quando, pela primeira vez, ouvi o nome do poeta. Quem o pronunciou foi sua neta, Mercês Coelho, amiga e colega de turma. Éramos adolescentes e eu já sonhava ser poeta, como os que lia nos livros escolares. Ela falou do avô com devoção… E declamou Janela do Passado. Nunca mais esqueci: o poeta doente, desenganado, para evitar o contágio, não podia abraçar a neta querida: “Debruçado à janela do passado, / Ao longe distingui longos caminhos / Repletos de cardos e de espinhos, / Em fileiras de um lado e de outro lado. / Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado, / Nos lugares desertos e mesquinhos, / Qual ave a cantar fora dos ninhos / Num gorjeio saudoso e sufocado… / Se a criancinha encosta-se ao leito, / Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava / Não me permite aconchegá-la ao peito! / Espelho sou, de luz amortecida; / Foge de mim quem outrora me abraçava. / É uma vida sem vida, a minha vida.”

Depois desse episódio com Mercês, a poesia e a personalidade de Adail Coelho Maia despertaram em mim uma curiosidade que vem se renovando ano após ano e me dando a certeza de que estamos diante de um dos maiores sonetistas da nossa literatura.

O poeta nasceu em São João do Piauí em 1907. Autodidata, dedicou-se ao estudo do Direito e das disciplinas clássicas, tendo exercido o magistério em sua escola particular e a atividade de rábula, até ser acometido pela tuberculose, que o vitimou em 1962. Estudou também francês e alemão com os padres José Maria Lauth e Francisco Scholz, da paróquia de São João Batista.

Adail é lembrado pelos seus contemporâneos mais pelo temperamento divertido, bem-humorado, do que pelas suas poesias, que traduzem dor, tristeza e sofrimento. Por que esse paradoxo? Por que o poeta escrevia sombrio, diferente do homem alegre que se mostrava no dia-a-dia? Incompreendido como artista, não tinha interlocutores para dialogar consigo, no meio em que vivia, e extravasou sua alma complexa, conflitante, numa lírica repleta de agonia.

O poeta, tocado pelo gênio que possuía, potencializou o lado lúdico dentro de si, “para melhor viver, para melhor passar” (verso do soneto O Urubu). Ele, para se sentir aceito, talvez inconscientemente, deixava-se-lhe aflorar o lado mais comum, mais apreciável, o do riso e da pilhéria. A face alegre que ele revelava no cotidiano não era blefe, fazia parte da natureza versátil do artista, como observou padre José Deusdará Rocha, que o analisou num trabalho importante sobre a sua obra. Mas, em verdade, a grandeza de Adail Coelho Maia está oculta em sua extraordinária poesia desesperada.

Não fosse a dedicação de alguns parentes e do padre José Deusdará, que em 1978 reuniram 60 sonetos do poeta numa modesta brochura, de tiragem reduzida, a obra de Adail estaria toda dispersa. Na época, adquiri dois exemplares e dei um ao meu dileto professor Cineas Santos. O outro, guardo-o como uma relíquia, uma pedra preciosa.

Nos sonetos predominam, como disse, a dor e o sofrimento, a angústia e a desesperança, mas podemos encontrar um tom de sátira em alguns, como A Questão do Alforje, Brinquedo Perigoso, Segundo a Bíblia e As Três Amigas. Faz tempo li em um cordel um poema épico de sua autoria narrando o massacre do Pau-de-Colher, que ocorreu em 1938 no norte da Bahia, perto das fronteiras do Piauí e do Pernambuco.

A Desgraçada é uma poesia incomum que me ficou conhecida ao ouvi-la diversas vezes ser recitada por José Wilson Dourado Santos, em festas e rodas de boemia. Nessa composição, dois sonetos de rimas alternadas se justapõem um ao outro formando 28 versos (04 quartetos e 04 tercetos). Trata-se de um soneto duplo, se é que podemos chamar assim, sem ferir os conceitos da boa análise literária.

A obra do poeta, profunda do ponto de vista psicológico e marcada pelo existencialismo sartriano, oscila entre dois pólos antagônicos: o Nada e a Transcendência do Ser. Foi padre José quem primeiro enxergou esses traços ao analisar os sonetos: “O tema do Nada ressoa em cada verso, mas de uma forma incoerente. O poeta se sente inútil e necessário, perdido e cheio de esperança. A verdade é que ele tem um sentido trágico da vida e poderia ser levado ao niilismo absoluto, porém sua educação e sua fé o impediram de prosseguir no caminho do Nada.”

Em Minha Vida, o poeta faz o cálculo de uma conta em que o resultado é sempre zero: “Procurei reunir uma por uma / As parcelas de toda a minha vida. /Por fim a operação foi dividida, / Não dando em resultado coisa alguma!… / Novamente reuni: fiz tudo em suma, / A conta certa e a prova conferida; / E toda a minha história assim perdida / Num lago extinto sem sinais de espuma… / Abri depois o livro do passado, / velho volume de tristeza e pranto, / Na poeira do tempo desprezado… / Numa folha esquecida e amarrotada / Encontrei a soma num escrito a um canto / Como parcela mínima do nada.”

Os niilistas do romantismo alemão negavam a existência e a fé nos valores fundamentais. Goethe criou personagens que não vêem sentido na vida: Fausto, desiludido com o mundo, pensa em se matar; o sofrimento do jovem Werther o leva à descrença e ao suicídio. Heinrich Heine, o último dos grandes poetas românticos alemães, nos versos finais de Morfina reduz a vida ao Nada Absoluto: “Dormir é bom; morrer, melhor; / O certo, porém, seria nunca ter nascido.”

O Nada na poesia de Adail, embora na superfície se pareça ao niilismo alemão, afasta-se em essência da idéia de morte; é mais fruto da natureza múltipla e angustiada do poeta, somado à sua consciência acerca do fim trágico que se aproxima. O poeta maldiz a sorte, apesar de, às vezes, mostrar-se resignado e de acreditar na imortalidade da alma: “Não quero pranto, pois me fere o peito; / Nas horas tristes do meu passamento / Quero a mudez da campa e o esquecimento / Para a minh’alma ter maior proveito…” (versos de Momento Final).

Faz algum tempo, escrevi uma carta ao poeta José Cronemberger – autor de dois belos hinos sobre São João do Piauí, musicados pela compositora Neli Damasceno – e ali eu colocava Adail Coelho Maia no patamar dos grandes sonetistas brasileiros. A qualidade estética de sua poesia, sobretudo, em O Usurário, O Ébrio, O Urubu, Se As Flores Falassem, Janela do Passado, Reveses e Minha Vida, pode-se comparar à de sonetos já consagrados pela crítica e pelo público, como: Pequei, Senhor…, A cada canto um grande conselheiro (Gregório de Matos); Psicologia de um Vencido, A idéia, Versos Íntimos, Vencedor (Augusto dos Anjos); O Sapo, A Moenda, Saudade (Da Costa e Silva); As Pombas, Mal Secreto (Raimundo Correia); Via Láctea, Nel Mezzo Del Camin (Olavo Bilac); Se Eu Fosse Um Padre, Da Vez Primeira (Mário Quintana); entre outros.

Em O Usurário, o poeta atinge o seu auge estético. A métrica exata e a rima alternada, perfeita, puxam o ritmo dos versos, numa marcação suave e melódica que encanta e faz bem. Este soneto tem qualidade para figurar em qualquer antologia de nossos maiores de todos os tempos, pela musicalidade, pela criação e originalidade das idéias:

“Pensando simplesmente no dinheiro

Vive o rico usurário, noite e dia.

Se alguém lhe bate à porta, traz primeiro

A nota do que tem por garantia!

Por quase nada, tudo ele avalia

Num gesto de sagaz aventureiro;

E em tão pouco tempo, cheio de alegria,

Leva do pobre o traste derradeiro.

O seu Deus é a riqueza conseguida,

Com ela pensa em se livrar do inferno

Porque com ela triunfou na vida.

Mas um pesar em seu viver influi,

Saber que morre e o desespero eterno

De não poder levar o que possui.”

Entretanto, a obra de Adail Coelho Maia está no limbo, dispersa, talvez, no mofo de carcomidos baús, clamando por ser reunida, divulgada e estudada nos bancos escolares. É preciso tirar o poeta do esquecimento imerecido. O centenário de seu nascimento passou em branco. Não podemos mais deixar isso acontecer.

Sonho em levantar o nome do poeta e apelo aos seus parentes e amigos a juntar tudo que porventura tenham dele para começarmos esse trabalho. Penso em organizar a sua obra completa numa edição especial, enriquecida pelo mencionado estudo do padre e por um ensaio literário assinado por algum crítico de nome. Para isso, preciso da ajuda de todos, dos familiares do poeta, de professores, alunos e diretores de colégio, e das autoridades da Educação e Cultura.

Precisamos colocar a obra de Adail nos currículos escolares para que a juventude a conheça. Todos nós, sanjoanenses, devemos nos manifestar a favor dessa idéia. Não podemos mais desprezar a sorte de ter como conterrâneo um artista no nível de Adail Coelho Maia e não o exibirmos ao resto do País. É como disse padre José: “Unicamente poderemos entender o Cisne de São João como um verdadeiro e grande artista. Ninguém sonhou mais alto do que ele sob este céu sanjoanense.”

O gênio incompreendido do poeta plana nas alturas. Conhecer a sua obra e celebrar a sua memória devem ser a nossa profissão de fé.

COMENTÁRIO

Wilton Porto

A crônica acima fora publicada no livro “RELATO DA ALDEIA”, de Gilvanni de Amorim, em 2008. O autor é sanjoanense e o livro conta os momentos, as andanças do escritor pela cidade, a saudade, o amor que lhe prende à cidade natal, as reminiscências presas na mente.

Com um olhar de luneta, Gilvanni vai vendo os acontecimentos, penetra em ruas, assenta nas praças, vê o reflexo das águas do rio, as alegrias e confusões de cada esquina. Nada se lhe escapa. Observador nato, ele nos coloca diante de cada momento esquecido, principalmente daqueles que moram distante, como eu. A crônica Adail Coelho Maia – página 115 do livro – está entre as crônicas que muito me sensibilizaram, assim como “Transe poético”.

Eu fui vizinho do poeta e cheguei a frequentar sala de aula, tendo ele como professor. Eu era garoto, não imagina à época, que eu viria transitar pelo mundo da literatura. Em dois livros meus fiz questão de lembrar o nome do poeta. Em EU, A POESIA E O SÉCULO, eu dediquei-lhe uma poesia com o título do nome do vate. No meu último registrei o nome dele também.

Navegando num mundo em que a doença lhe corroia a vida, o poeta desabafava o sofrimento em sonetos insuperáveis. Gilvanni, no texto acima, retratou com esmero sobre a literatura desse sanjoanense, que merece mais destaque dentro do cenário literário do Brasil.  Infelizmente o livro publicado, se não me engano “O LIRA DO SERTÃO”, pela família, não atingiu uma quantidade relevante para espalhar-se pelo país inteiro. Mas nós, sanjoanenses, temos que divulgar o nome dele, mostrar as poesias que ele escrevera e, até levantar um busto em sua homenagem. Já que o Portal Sanjoanense abriu um espaço para homenagear grandes nomes de São João, Adail Coelho Maia não pode ficar de fora.

O VERDADEIRO NATAL

dezembro 16th, 2009

Vós que habitais neste Brasil imenso,

Que sabeis de muitos: do desespero, da fome.

Não deixeis o vosso amor numa montanha suspenso

E neste mês, que é de Natal, lembrai de quem não come.

 Comigo, da mão, estendei a palma.

Deixai que o sorriso de um irmão se expanda.

É sempre no servir que se engrandece a alma.

E num pãozinho de vinte ri quem pedindo anda.

 Se todos os dias, tendes a mesa posta,

Lembrai que o Brasil é uma nação desigual.

Então, meu irmão, aos semelhantes não vireis as costas.

Só assim, estareis vivendo o verdadeiro Natal.

NA MANJEDOIRA

 

Se vires numa praça ou rua

Encolhido numa manjedoira

Um triste e pálido coração

Leva-o de encontro ao peito

Sussurra-lhe a “Noite Feliz”

Quem sabe! – me brote o Natal.

ABERTURA DA COLUNA

dezembro 16th, 2009

Esta coluna iniciou-se com três textos: as poesias O CURTIDOR DE PELES e CÍRCULO e MARIOLA, A DESAJUSTADA, que considero crônica.

Sei, no entanto, que merece uma abertura por parte do autor, afirmando como funcionará este espaço.

Moro em Parnaíba-PI, Norte do Estado, cidade litorânea, 339 km distante da Capital. Devido a isso, meus conhecimentos sobre o Norte do Piauí são maiores do que sobre São João, embora os meios de comunicação possam nos trazer em minutos, informações precisas sobre qualquer parte do mundo.

Com base nisso, esta coluna, embora a princípio pareça de teor cultural, pelo nome que carrega, pretendemos que ela vá mais longe: publicando-se textos conforme a necessidade e envolvendo pessoas outras que tenham interesse em divulgar seus trabalhos. Sei que existem dezenas de pessoas que gostariam de publicar algo que lhe toca e que já ouviu de alguém que está bem escrito, que merece ser editado. Entretanto, falta quem lhes dê oportunidade. Aqui, queremos abrir essa oportunidade, assegurando os princípios da coluna e do portal, que é levar conhecimento de qualidade sob os auspícios da moral.

O assunto deve seguir a ordem de importância do momento e passar pelo crivo de observação de pessoas que possuem conhecimento sobre o tema abordado. Sendo uma coluna dentro de um portal de São João do Piauí, é de proveito que moradores dessa cidade recebam um carinho especial, quando da ordem de publicação. Moradores de Parnaíba, por exemplo, temos outros portais e jornais não virtuais, onde podemos publicar textos de outras localidades com mais facilidade.

Gosto de incentivar os jovens. Estudantes ou não precisam cair de cabeça nos livros e no ato de escrever. Em primeira mão, os vestibulandos, que carecem estar de bem com a redação. Escrever é um dom. Todavia, aprendemos técnicas, aprimoramo-nos escrevendo e lendo muito.

As portas estão abertas. Enviem-me textos de qualquer estilo literário ou técnico de interesse popular que, em conjunto com o portal, tentaremos publicá-los. Acredito que o portal não se negará em receber sua matéria e publicar, se assim achar conveniente, claro, sem a minha permissão, caso perceba que não ferirá o bom nome tanto do assinante da coluna, como dos que dirigem o PORTALSANJOANENSE.

Agradeço o apoio que estou recebendo da equipe do portal, sou grato por ter-me aberto esta janela. E estou feliz, já que afastado de São João há mais de trinta anos, estou tendo esse espaço para comunicar-me de forma mais direta com meus conterrâneos e mostrar os meus trabalhos literários – meta de tudo escritor.

Com carinho,

                         Wilton Porto

Parnaíba (PI),  27/11/2009

GRAVURA…BRAVURA – MINHA MÃE

dezembro 16th, 2009

A linha escorregando

Pelos seus dedos.

A agulha penetrando rochas

Destruindo segredos…

O pensamento esvoaçante

Fazendo enredos.

Os pés, na máquina, pisando firme,

Para matar a fome, a sede.

O coração exaltado, mas contente em recordações,

Gravura… Bravura… da dura lida da minha mãe.

Sozinha: Rei-Rainha

Mantinha da sala à cozinha

Da Praça do Manuca

Ao Alto das Pedrinhas

Nove carentes filhos, com brilhos:

Na boca, no sorriso,

Tornando o lar um paraíso:

Calmo/rijo.

Com o marido fugidio

Enfrentou fome e frio

Deu murro em calafrio

acalmou tosse e febre.

Para evitar maldade e logro

Fez doces à beira do fogo

E já que a vida é mais que um jogo

Tornou-se encarnação da prece.

Mamãe: Guia… Sol… dos Céus caídos,

Acalento eterno, o mais sublime dos troféus,

Mesmo sem apoio, sem marido,

É mais que uma MÃE, é o próprio DEUS.

          Wilton Porto

SEBASTIANA DE SIM SENHOR

dezembro 16th, 2009

Mesmo numa visão empírico-analítica, compreende-se que há entre os mortais seres mais evoluídos do que outros. Basta que se olhe o comportamento em sociedade para concluir-se  quem passeia dentro das normas técnicas e estéticas ou não.

A mulher de quem falarei um “pouquinho” nesta matéria, está entre aqueles que vêm demonstrando esse comportamento ético-estético.

Se estou-me aproximando dos 53 anos de passos dados na vida, este é o tempo somado que eu a conheço. A conheço bem, então? Dizem que nem a nós mesmos conhecemos tão bem; todavia a aproximação que nos liga, sabe Deus por quantos séculos, dá-me o aval para escrever sobre ela.

Já que há aqueles que sobressaem em comportamento, em evolução, dona Sebastiana Oliveira Porto atingiu ou foi atingida pelo privilégio daqueles que subiram o patamar da vitória por merecimento.

“Nenhum homem pode atingir Deus. Mas… Deus pode atingir o homem”, diz o Filósofo e Educador Huberto Rohden. Para que isso aconteça necessário se faz que o ser humano esteja aberto para receber Deus, assim como para se receber o Sol precisa-se abrir a janela.

A melhor maneira para se abrir essa “janela” é meditar. Costumo chamar Cosmo-meditação, que é o silenciar, esvaziar-se do ego-pensante para se preencher do Cosmo-pensado, ou seja, quando nos esvaziamos,  entregamo-nos totalmente nos braços de Deus, deixando-O agir em nós, este nos atinge e passamos a servir por intuição.

D. Sebastiana abriu-se para o Cosmos. E foi por isso, que ao ser abandonada pelo marido em 1961, com oito filhos, mais uma de criação e somado com ela totalizando 10 pessoas. Essa senhora não se deixou esmorecer. Eu, o terceiro da prole entre os vivos, contava com oito anos de idade e a caçula – Maria Gorete – tinha apenas um ano de idade.

Sem “lenço e sem documento”, pois o marido lhe deixou uma ótima loja atolada de dívidas, chorou de imediato a perda do esposo amado, porém 10 pessoas para sustentar em tudo, principalmente no Amor, não lhe dava oportunidade para deixar-se levar pelas emoções.

 Naquela manhã, madrugou na meditação. Fervorosa oração silenciosa tomou-lhe por inteira. Sabia ela, que de nós mesmos nada somos. Contudo, com o Deus que creou  tudo e  todos, tudo se pode. Levantou-se, reuniu os filhos e explicou como seria a vida a partir daquele momento.

É lógico que os filhos não podíamos  logo entender a situação  explicada. Pensar em passar necessidade, em cortar regalias, pular de uma situação social privilegiada para outra muito mais baixa…

O tempo foi mostrando a nova realidade: a mesa farta havia sumido. Minha mãe à beira do fogo fazia tijolos de leite, que eu passei a vender nas ruas. Horas a fio, ela, à máquina, costurava para fora… E a saudade e a tristeza escorrendo como se fosse um rio…

Não podia  deixar de olhar minha mãe como uma mulher dotada de divindade. Aquela senhora fechou-se para todos os homens, todos os prazeres mundanos, para acolher debaixo das suas asas de anjo os filhos, que para ela antes de serem seus filhos, eram filhos de Deus. Não a ouvia  reclamando, mas via-a orando, rosto iluminado pela certeza de que estava sendo ouvida. Naqueles momentos, lembrava-me São Francisco de Assis no Monte Alverne, entregue extasiado nos braços de Cristo. E se eu não podia ter sapatos ou roupas, se aquilo que eu tanto almejava comer,  não podia; não chorava, não sofria, diante de minha mãe sorria.

Nas ruas, nas portas dos colégios… eu vendia doces. Compramos uma caixa e passei a engraxar sapatos. Não imagina o leitor amigo a alegria no meu rosto, vendo a alegria brilhando no rosto de minha MÃE!

Quando eu tinha entre 15 e 16 anos de idade, eu precisava ir a uma festa dançante no melhor clube de São João do Piauí, minha cidade natal. Era junho. Festas tradicionais. Eu havia marcado encontro com minha namorada naquela festa. Mas não tinha  sapatos dignos para a noite. Minha mãe

passara o dia na tentativa de  comprar um par. À noite chegou. O céu estava lindo. As luzes da cidade mostravam um brilho especial, meu coração parecia querer saltar do peito. O encontro da noite seria longo. O perfume da namorada embriagando-me por inteiro, já se fazia presente. Eu pensava: “Minha mãe chegará com os sapatos.” Chegou a noite, mas com a noite não chegaram os sapatos.

No quarto, solitário, quedei-me em lágrimas. Não  podia deixar que mamãe me visse chorando, após tantas tentativas de comprar sapatos por parte dela. Sabia  que naquele momento o coração dela estava estraçalhado. Mamãe sempre elogiava os meus esforços para ajudá-la. Ela compreendia que eu, mas do que qualquer pessoa neste mundo, merecia aqueles sapatos.

Corri ao banheiro, tomei um banho, pus o melhor dos sorrisos e me acheguei até mamãe. Abraçamo-nos. Ela Consolou-me. Aquele abraço, aquela voz, calou-me fundo. Assim resolvi ir ver a festa. Pela janela do clube vi minha namorada naquele vestido feito especialmente para agradar-me. Sem que ela  pudesse perceber, com o coração atirado ao chão, sentei-me na calçada e chorei…. chorei…. chorei…

Esses acontecimentos dados aos homens comuns não ficavam alheios à minha mãe. Nem ela se deixava abater. Muito menos nos deixava esmorecer. Ela é Cosmo-pensado, janela aberta para o Amor, e não foi à toa que Deus lhe deu o encargo de ser Pai e Mãe, Amiga, Guia. Mamãe tinha e tem tanta consciência disso, que nunca se preocupou com ela mesma. Vi-a muitas vezes tirar o pão de sua boca para alimentar nossos amigos. Nossa casa era sempre cheia de gente. Era?…

Quando a situação ficou desesperadora, minha mãe começou a liberar meus irmãos mais velhos para irem em busca de melhora em São Paulo. Em 1965 viajou José de Alcântara (Bibiu), que muito havia agraciado os sanjoanenses com lindos gols. Ele era realmente um craque. Não se profissionalizou por

 falta de firme interesse. O Ríver, de Teresina, tentou contratá-lo, porém ele desistiu e foi para São Paulo, desperdiçando outras oportunidades por lá também.

Minha irmã Teresinha, a mais velha, partiu em seguida. Todos foram, até minha mãe: São Paulo era o grande centro para onde convergia a maioria dos nordestinos. Mas eu fiquei  – precisava concluir o Ginásio.

Em São Paulo as coisas não eram mil maravilhas. Contudo eu só fui para lá em 1970. Minha mãe com pulso firme direcionava-nos no amor, na ética, na exatidão. Éramos e somos bem conceituados onde quer que cheguemos. Lembro-me bem de que muitas moças sonhavam em casar-se com um “Porto”. Só uma mãe predestinada, que vive sua essência em plenitude, que não se deixa dominar facilmente pelo “eu” mas pelo “EU” consegue direcionar os filhos de tal maneira a terem a responsabilidade constante. Minha mãe conseguiu. Maria Gorete, a caçula, por exemplo, é formada e ganha um belo salário, trabalhando no Tribunal de Contas de São Paulo. Todos já casados nunca deram trabalho na sociedade. Cidadãos de bem, têm todos contribuído para o crescimento do país, como seres ativos, responsáveis e benquistos.

No meu primeiro livro (Poesias): “EU, A POESIA E O SÉCULO” dediquei uma poesia de que eu gosto muito, para minha mãe, intitulada: “ORGULHA-TE MAMÃE!” não a publicarei por falta de espaço. Se der, publicarei no final desta matéria, a última que lhe dediquei entre tantas.

Em 1970, compus uma música: “Minha Mãe, Ouça-me… Ao menos cantar”, cantada no Dia das Mães. Foi um sucesso na cidade. À época, não havia emissora de rádio em São João do Piauí, mas no dia seguinte uma amplificadora, no centro da cidade, transmitia a minha voz para todo os sanjoanenses em alto e bom som.

Minha mãe merece cada palavra que lhe dedico. Em poesia, crônica, música, discurso… Mereceu o sacrifício da minha infância, adolescência e juventude para me dedicar aos meus irmãos, apoiando-a.

Logo que cheguei em São Paulo (1971) fui trabalhar na fábrica de lambretas. Muitas vezes, esperava minha mãe conseguir dinheiro para levar a minha marmita com o almoço. O intervalo da refeição acabava e o almoço não chegava. Doía-me mais em saber que minha mãe, talvez, estivesse chorando por não poder levar a minha comida e a barriga  “roncava”. Naqueles momentos, uma força Univérsica se apoderava de mim e eu  tinha mais vontade de vencer. Por isso, mesmo com fome, eu  ia para a Universidade, chegando em casa, muitas vezes, uma da manhã com tremenda dor de cabeça e dor de estômago. Naquelas horas só duas verdades alimentavam-me: ser alguém para ajudar minha mãe e espiritualizar-me o máximo para ter espírito tal qual o de minha mãe, que  continua sendo exemplo de dedicação, de Amor, de despojamento. Continua ajoelhando-se aos pés de Cristo, em prece, tal qual quando os relâmpagos em chuvas torrenciais embalavam-nos o medo à época da minha meninice ou quando as dificuldades eram horripilantes.

Às vezes, a lembrança do seu colo morno, dos seus braços  quentes, dos seus beijos aquietantes seguidos de frases de confianças, iluminam minha mente, impulsionam-me a seguir cônscio de que estive sempre nos braços do próprio Cristo, o que me mobiliza a ser um eterno cristão convicto, um humanista por inteiro.

Nem mesmo o cansaço de tantos anos de labuta sem férias, tira-lhe das atividades diárias. E quantos anos já passaram em que a via ao pé da televisão, boca aberta, dormindo, tangida pelo cansaço! No entanto, no dia seguinte estava lá ela nos seus afazeres, disposta, feliz, harmoniosa. Como diz o Poeta Coelho Neto: “Ser mãe, é ter tudo e não ter nada, ser mãe é sofrer no paraíso.” Como sabemos ainda, no que diz respeito à

Mãe, “Nem Deus prescindiu de tê-la”, como, se não me engano, disse o também Poeta Alarico da Cunha.

            Família de minha mãe:

PAIS: Raimundo Porto e Maria José Porto

ESPOSO: Raimundo Magalhães Porto.

FILHOS: Teresinha, José Alcântara, José Wilton, Maria José, Agamenon, Afrânio, Carlos, Gorete, Enói (criação),

MORTOS: Francisco e Maria de Fátima.

NASCIMENTO DE MINHA MÁE: 03/08/1924

           Wilton Porto

SE O PRESENTE É PARA O MEU FILHO, EU BRIGO!

dezembro 16th, 2009

O menino ao ouvir as músicas de Natalina, saía sorrateiramente de casa, corria para o coração da cidade, se embevecia com o colorido das luzes espalhadas pelas lojas e se embasbacava com os inúmeros e diferentes tipos de brinquedo.

Após a paralisação momentânea – levada pelo encanto -, ele arregalava os olhos, mexia em um, noutro, e em outro, como se a escolher o mais apropriado ao bolso, ou o de mais beleza, ou o mais moderno. Porém, ficava no mexer. E, muitas vezes, algum vendedor ralhava, pois percebia que ele não estava acompanhado dos pais, roupa indicando pobreza e sabia-se que ali não se teria uma venda.

Triste, o garoto evadia para a praça mais próxima, sonhava com um daqueles brinquedos sendo embrulhado e imaginava mostrando-o a todos.

Com o olhar brilhando de esperança, ele fitava o Papai Noel que se movimentava em frente à loja. Pedia-lhe em pensamento que lembrasse dele e dizia-lhe como em oração: “… que ao acordar, na manhã de Natal, meu presente esteja debaixo de minha rede. Amém”.

A mãe atentava-se para o alvoroço do menino. Percebia que ele a espreitava ansioso e rubro, embora quedasse silente – ele sabia do amor da mãe, das dificuldades que ela enfrentava e, que, muitas vezes não tinham a mesa posta quando das refeições.  

A mãe chorava – às escondidas – de um lado. O filho chorava – à distância – de outro lado. A mãe chorava, porque vendo o olhar pedinte e compreensivo do filho, não podia satisfazê-lo. O filho se desmanchava em lágrimas porque, verificando outros garotos nas bicicletas, exibindo carros barulhentos e a controle remoto, ele nem sequer podia se aproximar: com o egoísmo na ponta da unha, a garotada agarrava o brinquedo, saía depressa, como se pressentisse que seria roubada.

D. Natividade Natalina Forte fora até o comércio BRILHANTE. A movimentação demonstrava a efervescência das vendas. Carros do ano encostando. Madames bem vestidas. Ouros cintilando fortes reluziam nos olhos de dona Natividade. Esta se sente tímida, deslocada. Os vendedores quase se ajoelhando aos pés das damas da soçalaite, se alternavam em solicitudes. Para Natividade, olhavam de trejeito – por desconfiança, medo de que ela pudesse larapiar algo.

Às madames, serviam café com bolos… Para a senhora Natividade: “Por favor, a senhora está atrapalhando, não gostaria de ver vitrines, observar outras lojas…?”

- Eu gostaria de falar com o Gerente!

- Ele está ocupado, conversando com a esposa do prefeito.

- Será que ele demorará?

- A senhora não gostaria de ir a uma outra loja?

- Bem. Ele pode resolver o meu problema.

- Se é esmola… Acho… A loja está cheia, a senhora não percebeu que estou deixando de atender os clientes?! Que estou perdendo gorjetas?!

            Natividade fica vermelha. O sangue – às lufadas – desanda em direção à cabeça. Ela tenta lutar, com todas as forças, contra a ferocidade a saltitar latente. Não consegue. Como se estivesse servindo de intermediária entre este e o mundo invisível; como se alguém do lado de lá tomasse as rédeas da situação, ela destemidamente começa uma oratória, mais tarde discutida em esquinas, bares, lares e meios de comunicação.

- Meus senhores e minhas senhoras. Apesar de estarmos no Século XXI, o homem, salvo uma minoria, ainda continua estufando o peito em orgulho e egoísmo. Considera peças de roupa e joias o que há de mais importante, somando-se a isso, sexo e poder. E se um semelhante não se apresenta vestido numa roupa de marca, não desfila pelas ruas só após passar por um salão de beleza e pelo corpo não exibir destacado rubi, ele é tido como um súcia, imediatamente desprezado.

A loja parou. Uma arena fora feita. Quem passava em frente à elegante empresa entrava. O gerente vendo o alvoroço, tirou o bumbum da cadeira para assuntar o que estava acontecendo. Os funcionários tentavam acalmar a senhora. Surgiram os que queriam impedir o discurso à força… Apareceram também os defensores de Natividade. Assim ela continuou.

- Eu vim aqui porque meu filho – como qualquer outro do mundo – merece um presente de Natal. No entanto, eu não tive a sorte ou não usei de meios escusos, como muitos deste país, para ser graduada em conta bancária rechonchuda, tal qual, com certeza, como muitos dos que aqui estão sendo recebidos à base de café, bolos, ou seja, tratamento cortês.

E continuou: – eu vim a esta loja na esperança, como mãe que ama o filho, de conseguir comprar algo que alegre o coração do meu garoto amado, esperto, estudioso… Porém, eu fora recebida com desconfiança, olhares atravessados, como se vissem em mim uma ladra, uma esmoler. Maltrataram-me.

Ela não parava: – Enquanto muitas madames que estão nesta loja, neste exato momento, vivem atoladas num salão de beleza, eu dou o duro lavando e passando roupas… E para ganhar um mísero salário. Eu pago imposto e taxas como todos os presentes neste recinto e neste país.

Ela se emocionou. Chorou. Tímidos aplausos soaram no ar. Porém o som da sirene do carro da polícia chamou a atenção da plateia. Muitos saíram apressados. Natividade estremeceu. Apesar de, não perdeu a pose. Os soldados, cacetes na mão, abriram espaço, invadindo a área. O gerente logo se apresentou dizendo: “essa mulher (apontando-a) está fazendo discurso promovendo motim. E eu já soube que produtos foram roubados por conta disso. Dessa… 

- Por causa dessa comunista, mendiga, coitada… Completa, Sr. Gerente!

Os policiais partiram para a Sra. Natividade… Um homem bem vestido surgiu, como um relâmpago, tomou a frente de Natividade e disse:

- Eu sou Dr. Ângelo dos Anjos de Jesus, advogado desta senhora. Se alguém mexer com ela sem passar pelo crivo legal, eu entro com processo…

- Recebemos telefonema do gerente da loja – afirmou um policial.

Então, que apresente queixa na delegacia, tragam intimação por escrito. Sr. Gerente. Aqui temos muitas testemunhas de que minha cliente…

- Natividade…

Minha cliente Natividade não fez, até o presente momento, nada que possa desonrá-la. Muito pelo contrário, só queria comprar um presente para o filho. Alguém discorda do que ela disse?

Silêncio.

Uma dama quis se alterar: “Ela nos atacou…”

A senhora não fica horas no cabeleireiro? Quantas vezes a madame vai para a beira do fogo, para a fonte machucar, sujar suas mãos bem tratadas, lavando roupa, por exemplo? – Perguntou o advogado.

A dama calou-se.

- Sr. Gerente. Se os seus funcionários não tivessem tratado com indiferença, achado que minha cliente é uma ladra, nada disso teria ocorrido. Os aproveitadores não teriam levado produtos, como o senhor disse que levaram. Quem merece processo é a loja, que tratou mal uma trabalhadora, uma pessoa que viera no intuito de comprar. No entanto, os seus empregados olharam primeiro a roupa, a humildade de dona Natividade. O dinheiro dela é diferente dos outros que entram para adquirir produtos? Digamos que ela tenha vindo para comprar fiado, pedir para dividir a compra em prestação. Ainda assim, ela não podia receber o tratamento que recebera. Bastava dizer, delicadamente, que a loja não trabalha dessa forma. Embora se saiba que neste país todas as lojas fazem questão de vender fiado. Assim sendo, aqui houvera um caso de desprezo, humilhação, puramente social. Entretanto, Sr. Gerente. Nós podemos ser generosos. A loja pede desculpas em público pelo acontecido e oferece o presente que minha cliente escolher. E Natividade – se assim aceitar – encerra o caso, põe uma pedra em cima do que acontecera.

Gritos… Aplausos. Lágrimas de dona Natividade…

Algumas pessoas que quando viram a polícia, se retiraram assustadas, ao longe oravam. Ao perceberem que a polícia se retirava sem jogar a senhora dentro do camburão policial, alegraram-se. E não fora com tamanha alegria e gritos de viva! Viva! Viva!… Que observaram a saída de Natividade. Vinha abraçada ao advogado, pacotes na mão.

Corre-corre: todos queriam saber o que acontecera.

A sabedoria, a fé, a retidão subiram ao altar naquele tarde de véspera de Natal.