Ângelo Valente
                                                                                                                          (ou Victor Viking)
Quando assomava à janela
tão linda como uma flor,
era ela, Gabriela,
entre as jovens a mais bela
fazendo acenos de amor.
Â
O tempo foi se passando
nosso amor desabrochando
como um santo num andor.
Era ela Gabriela,
entre as flores a mais bela,
fazendo acenos de amor.
Â
Um dia fomos à Igreja
com alianças e véu
o mundo inteiro sorrindo.
Era ela Gabriela,
a multidão na capela
e nossas vidas se unindo.
Â
Mas tudo um dia acabou
Tudo se desatinou
com o afastamento dela.
Minha vida sem janela
sem flores, sem Gabriela
não tem mais cenas de amor.
Â
Publicado há muitos anos
No Jornal O Estado – Teresina
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                                                                     Ângelo Valente            Â
(soneto com 5 partes)Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â Â (ou Victor Viking)
Â
Beta! Tu foste a nossa miss, quando éramos crianças,
Eleita apenas pelas graças da infância.
Uma miss natural – bem loura e já sem tranças,
Uma flor esvoaçante em nossas existências.
Â
Nós éramos garotos- sem maledicência,
Brincávamos com irmãos e com nossas irmãs,
À noite nas calçadas, no rio nas manhãs.
Nós éramos anjos, pérolas da inocência.
Â
Mas o tempo passou, Miss Beta, na boa aparência,
De um sonho bem vivido e bem guardado.
Vivido pelos Paulo, em magistral cadência,
Pois é um povo forte, e nunca derrotado.
Â
Foste sempre valorosa, Beta, até mesmo valente,
Enfrentando a vida com caráter destemido,
Criando imensa famÃlia com teu amor ardente.
Â
Tudo foi bom, nossa miss, nada foi em vão.
Mas que saudade de todos, do Pedro, a tanto tempo ido!
Que saudades de ti, Teresinha, em teu Aidão!
                                                           Ângelo Valente
                                                                                                     (ou Victor Viking)
Â
 Quando abro os olhos, o sono já desfeito,
E me recordo que estou na madrugada,
Aconchegado ao seio da mulher amada,
Meu coração não quer parar, dentro do peito.
Â
Envolvo-me em seu corpo , assim…, daquele jeito…
Que você sabe como é, meu camarada.
E já começa aquela ginga abençoada
Com toda espécie de caricias e trejeitos.
Â
E tudo se repete em novas madrugadas,
Doces refregas, com segredos conjugais,
Numa conversa franca, e não desesperada.
Â
Porém termina sempre numa luta encarniçada,
Dos doces gozos dos órgãos sexuais,
Que fazem da existência a vida eternizada.
(eu mesmo, mesmo)
Por um momento fiquei louco
e fiz
o que não era certo.
Então fui procurar – não encontrei
ninguém que se dissesse incerto,
- todos se diziam certos.
Â
Meditei!…
não encontrei
ninguém tão fraco como eu.
Vi um deserto!
Então chorei,
- me amaldiçoei.
Pequei!
Â
E então apelei para o perdão.
Mas quantos pecados já de antes,
eu tinha?!…
Mais de mil.
Era pecado demais…
Mas me convinha
procurar mais,
- mais saÃda.
E entender o que faltava em mim.
Fui procurar em Deus.
Â
E novamente meditei
Com mais afinco e fé.
E foi então que encontrei
o que eu precisava tanto encontrar, de fato.
Eu precisava era encontrar
(eu mesmo),
Â
e bem dentro de mim
(mim mesmo),
pelo caminho de Deus,
encontrar
(eu mesmo),
- com o meu próprio eu mesmo -,
mesmo.
Â
Pense comigo mesmo
 A. V.
Um passarinho passou, caindo,
e caiu morto.
Um outro passarinho passou, voando,
e foi ao alto,
enaltecendo a vida.
Mais outro passarinho passou, cantando,
e também foi ao alto,
e foi ouvido.
- enalteceu a vida -
Um quarto passarinho…
Este não passou-, nem voando nem cantando
amedrontado ficou,
entre as folhagens.
Não enalteceu a vida.
mal piou.
É que ele  estava vendo o menino com o estilingue
- entrincheirado -
ao lado de seu pai, de braços encruzados.
E foi então, que do alto,
o passarinho que passou, voando,
e o passarinho que passou, cantando,
- lhe chamaram:
Vem conosco, companheiro amedrontado!
Vem agora!
Vamos voar e cantar.
Que o pai do menino do estilingue
meditou,
e liberou,
nossas asas e gargantas.
- uma alvorada nos espera…
 Ângelo Valente
Estou ficando surdo e cego,
isolado do mundo.
e eu queria ver a tua face,
apenas um segundo,
- depois de cego.
Queria ouvir a tua voz,
ao meu ouvido,
dizendo-me baixinho: amor!…
- depois de surdo
E enquanto não sou surdo e cego,
de todo,
faz-me uma caridade.
dorme comigo, apenas uma noite,
pra me deixar saudade-
Â
 Ângelo Valente
(versos soltos,
pobres versos)
Ângelo Valente
a . . . . . . . . . (?)
Eu amo o bêbado escornado na calçada
Da mesma forma que amo as ‘mães-pretas’
segurando as tetas
para alimentar
Amo o bêbado apagado na calçada
Da mesma forma que amo o astronauta
rasgando o Universo na jornada
com responsabilidade
Também amo o delinqüente, que dormindo,
Tem no semblante um toque de sorriso
de quem sonha a oportunidade,
de redimir-se
Amo também, e muito, a mim – ás vezes descuidado
Mas sempre certo da força do amor
que me dou
que aos outros tenho dado
E quero amar ainda mais, ser mais amado ainda,
Amar compartilhando – amarmos juntos – ,
divagando, estremecendo, e gozando.
Viver fortalecidos.
Quero dormir o sono do bêbado escornado
Ter o apagão do bêbado apagado
Quero sonhar o sonho de oportunidade
Do delinquente, para me redimir
Quero o abandono do bêbado na calçada
A grandeza da ‘mãe-preta’ alimentando
O arrojo responsável do astronauta, navegando,
Do delinqüente a fé na remissão.
Me dá a tua mão.
- Morro dos cavalos
Canto do Buriti – 1988.
 Ângelo Valente
Te entrega de mansinho
Estamos em segredo
Entrega-te amor
De mim não tenhas medo.
Te entrega de mansinho
Sufoca-me com beijos
Me mata de carinho
E faz de mim teu ninho
Aplaca os teus desejos.
Â
De ti eu quero tudo
Fazer de ti meu mundo
Estar contigo sempre
Num êxtase profundo.
Nesta ansiedade louca
Agora com ardor
Penetro em teu corpo
Extasiando-te
Rasgando o véu do amor.
Â
(Poema musicado)
Ângelo Valente
(aos doutores Nilmar e Lourdes Valente)
Estou cansado de mim,
dos desacertos
que na vida cometi
correndo atrás do certo.
Eu mesmo até nem sei
se fui inverso, omisso, até perverso
tentando o bem fazer.
O bem eu sempre procurei!
Se submerso estanquei
nas tentativas fracassadas,
de um humano ser,
= não foi por meu querer
- não quis o mal fazer.
Nunca deixei de persistir
no bem.
Algo, porém, de bom deixei,
(disto estou certo),
na superfÃcie do oceano meu tumultuado,
- na superfÃcie deste meu viver.
E isto foi!
o grandioso amor que sempre tive
- e que aos jorros sempre entreguei -
a tudo que de bom,
na vida existe.
 Ângelo Valente
 Me faz adormecer minha querida
E em volta do teu corpo amanhecer
Tu és o grande amor da minha vida
E sabes que jamais vou te esquecer.
A vida está passado tão depressa
Trazendo as amarguras dos meus ais
E eu tento reviver nossa existência envelhecida
Me equilibrando nos meus passos desiguais.
Â
Ainda me recordo, não foi sonho
Tivemos mil momentos triunfais
Embora mude a cor dos teus cabelos
Teus olhos cintilantes brilham mais.
Revejo-me entrando em nosso quanto
Puxando a linda colcha de cetim
Teu corpo mal coberto, entreaberto, insinuando
De mil formas mil desejos para mim.
Â
E agora em nossas vidas
Numa visão de sonhos
Minha alma enternecida
Te faz estes versos
Meigos e tristonhos
(Poema musicado)
Soneto com 5 partes
Ângelo Valente
(ou Victor Viking)
No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho
Carlos Drumond de Andrade
Tem um homem no meio do caminho
No meio do caminho tem um homem.
Meu Deus, morte e homem me consomem.
Tem um homem no meio do caminho.
Que vou fazer, meu Deus? Estou sozinho
E esta vida é cheia de empecilhos.
O homem é o mais perverso dos teus filhos
Tem um homem no meio do caminho.
O que vou eu fazer, meu Deus, com aquele vulto?…
Será que vou sofrer um novo assalto?
A vida agora, é só de sobressalto
Olho ao redor, não sei onde me oculto.
Em todo lance da vida entra a sorte
Toda certeza do homem é duvidosa
Toda estrada da vida leva à morte.
E a morte é sem consorte. E’ ser mesquinho.
Não vou deixar meu caminho à sorte. E’ caprichosa.
Vou enfrentar o homem do caminho.
(soneto com forma mais moderna)
Ângelo Valente
(a Higino Santana, profundo conhecedor dos amigos)
Um Beija-flor, em vôos rápidos, sem cansaço,
Sugava em muitas flores o seu doce néctar,
Enquanto um gaturamo, em torno, punha-se a cantar
Maviosos cantos, de macho, pelo espaço.
Então o gaturamo, macho colorido, reluzente,
Quis uma flor beijar – seu néctar sugar.
Tinha esta um néctar sobejante, inebriante,
Qual seiva da mulher no cio, a rorejar.
Porém o Beija-flor, com a força de um gigante,
Gritou! – Sugar é coisa minha! Não é de ti sugar!
E esta flor-mulher é somente minha. Vai-te adiante.
E agora tu dirás, leitor, como segue?…
Deixa em paz, gaturamo, o Beija-flor!
Cada um tem o seu jeito na hora de ‘amar’.
O teu é com o cantar. O nosso é com o sugar.
Ângelo Valente
                                                                                 à filha Jordânia
                                                                                 (com 12 anos)
Fita a beleza da rosa, ó filha minha,
E põe-te docemente a meditar
Que a beleza da flor em ti se aninha,
Pois, jovem, tens o coração a palpitar.
Â
 Olha bem a estrada em que caminhas,
Vê bem em quem podes confiar.
Procura conhecer quem se avizinha
Com prudência. Cuidado! Devagar.
 Â
A cada um dá o quilate que merece.
Alteia-te em virtude, sem trocar
A fé e a honradez que só nos enaltece,
 Â
Por qualquer outra coisa, mesmo de encantar.
Evita muito o pecado, que só nos embrutece.
Em Deus e na virtude deves te firmar.
 Canto do Buriti, PI – 1997
Ângelo Valente
Há muito tempo que a morte, comigo quer casar,
viver só de carinho, e muito trá- lá – lá.
Mandou me procurar
pra nos casar,
e pronto fui.
Vieram me buscar
debaixo de músicas de obuses e de bombas
e metralhas, tá- rá tá- tá
Uma batalha.
Era uma sexta-feira 13
Dia de má sorte, dizem, e também de morte.
Mas, morte mesmo,
eu não estava pressentindo,
Não estava entendendo.
Era mesmo um caso de amor, que eu tinha com a morte.
Feliz eu me casei com ela, ela mesma, bem vivinha.
Virou minha consorte.
Foi mesmo assim…
Vieram me buscar
pra me casar com a morte.
Viver só de carinho, e muito trá – lá-lá.
De inÃcio, quando lá cheguei, até gostei.
Era ela uma loura encantadora
pedaço de mulher, chamava-se Leonora:
- voz sonora (Ã s vezes cavernosa), roupa escura, pele clara,
boca cor de rosa,
biquÃni 39, idade 29
cara serena mas de quem não corre,
quando chove,
ou mesmo de quem morre.
Amava carnaval,
- gostava de um porre
- e nos enamoramos.
Até ai tudo bem!
Mas logo eu estranhei.
Não concluÃamos as núpcias,
nunca dava de jeito…
As volúpias
por mim tão desejadas
ficaram em nós retidas, retraÃdas,
por um trilhão de anos.
(Por pouco a eternidade não passou)
- No eterno tanto faz a eternidade
como apenas um instante.
É tudo igual.
Ali tudo é imortal
Foi mesmo assim…
Até que enfim,
eu voltei…
- O que, leitor?!
- Eu não voltei?
- Onde é que eu estou?
Meu Deus, agora eu entendi.
É isto mesmo, eu morri…
A morte é mesmo mulher.
A morte me enganou.
Aqui é a eternidade.
Praça João Luiz Ferreira
Teresina – 2005
dezembro 29th,2009
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Ângelo Valente
(ou Victor Viking)
Pela estrada da vida caminhando
Como anjos de Deus enfileirados
Vão trilhando casais de namorados
As belezas da vida partilhando.
Alegres, triunfantes, arrulhando,
Eles seguem assim, despreocupados,
Uns de mãos dadas, outros abraçados
Os prazeres da vida desfrutando.
E no amanhã, entre os velhos casais,
Reviverão a vida adolescente,
Os doces tempos de moça e de rapaz.
Caminhem namorados, nesta paz,
Que a bondade de Deus, onipotente,
Concedeu a vocês , e a ninguém, mais.
dezembro 29th,2009
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Ângelo Valente
(ou Victor Viking)
a Roberth Paes Landim
A praça é um cemitério de recordações
Onde as lembranças estão armazenadas
Onde a paz e a dor, caminham de mãos dadas
No mais longÃnquo das nossas emoções.
Vem a saudade. Senta-se a meu lado,
E conversa comigo, apaixonadamente,
Enquanto o coração, efervescente,
Me traz sorrisos e beijos do passado.
Vivo de novo – cada amor vivido – ,
Ai meu Deus, como isto é fascinante!…
Chega Helena, me deixa enternecido,
Teresa chega e passa – fico enlouquecido.
Chega ainda Mara, deslumbrante,
O meu maior amor – o mais perdido.
Praça da Igreja
- Honório Santos -
São João do Piauà – 2005.
dezembro 29th,2009
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Ângelo Valente
(ou Victor Viking)
A São João do PiauÃ
Terra Natal
Na minha terra, quando a noite desce
A solidão semeia a várzea pura
De longas trevas e branca ternura
Enquanto, ao longe, o luar já cresce.
Vem o calor da tarde e se esvaece
Num frescor suave de verdura
E a natureza, trêmula murmura
No bafejo da noite as sua prece.
E’ o amor pungente, a divindade,
No seio do sertão a palpitar,
Onde Deus jamais se entristece.
E quando o mar da aurora despertar
Tristonha a noite, ao longe, empalidece
Acenando ao dia uma saudade.
Goiânia – 1953.
O verdadeiro nome do autor
é Ângelo Figueiredo Filho.
Ângelo Valente – e Victor Viking
são pseudônimos do mesmo.
dezembro 29th,2009
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Ângelo Valente
(ou Victor Viking)
Se escrevo com muitos ‘tês’
Em minhas poesias, é que
Não posso eu ser diferente.
Deus assim me faz, pobre poeta,
cheio de tês, e de repetições
de rimas e corações,
cheio de métrica
(e talvez de maldições).
São coisas da Poesia.
Te imploro meu amigo: me agüenta!
Não sei fazê-las de modo diferente
E o pior…
(ou melhor)
é que
não sei viver sem fazer
poesias
(mesmo que pobres).
E ainda te peço para ler.
São coisas de poeta.